Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de novembro de 2014

Emancipação da política


por Cristovam Buarque
01/11/2014 - 09h12

O Brasil chega a 200 anos de sua emancipação política sem conseguir fazer a emancipação de sua política.

As amarras precisam ser cortadas (Foto: Arquivo Google)
 As amarras precisam ser cortadas (Imagem: Arquivo Google)

Nossa política está prisioneira do elevadíssimo custo de campanha, que amarra a eleição à disponibilidade de recursos financeiros. Conforme o TSE, em 2014 foram gastos cerca de R$ 74 bilhões por 25 mil candidatos. Para 1.689 eleitos, o custo foi de cerca de R$ 3 milhões por candidato, R$ 43,8 milhões por eleito, mais de R$ 500 por eleitor.

Por causa deste elevado custo, a política está prisioneira do sistema de financiamento. O candidato precisa ter acesso a fontes que amarram os eleitos, comprometendo-os com os interesses dos financiadores.

A terceira amarra são os institutos de pesquisas e os marqueteiros. Os primeiros dizem o que o candidato deve falar; os outros como falar, qual a mídia a ser utilizada, a mentira a ser construída. Os institutos também amarram os eleitores ao apresentar resultados que indicam vencedores antes da data.

Esta eleição mostrou que estamos prisioneiros da mitologia de que alguns são de esquerda e outros de direita, quando na realidade as coligações e os partidos são todos igualmente desideologizados.

Uma quinta prisão são os programas assistenciais que amarram os votos de seus beneficiários aos candidatos que conseguem se apropriar da paternidade do programa e dá garantia de que ele será mantido. O assistencialismo amarra os opositores ao risco de que, se eleitos, paralisarão o programa, e aos situacionistas porque se transformam em partidos que dependem da continuação da miséria para conseguirem os votos que precisam. A emancipação dos pobres emanciparia a política, desmoralizando os donos dos programas assistencialistas.

Sexta prisão é o silêncio dos intelectuais, paralisados na reverência ao poder, incapazes de oferecer alternativas que sirvam de base a propostas de reformas sociais que, ao emancipar o povo, emanciparia a política.

Sétima amarra é a cooptação, por compra de agentes políticos, como no caso do mensalão, ou por financiamento e beneficiamento a ONGs, sindicatos e associações.

A oitava prisão é o aparelhamento do Estado pelo partido no poder. Pela tradição de tratar o Estado como propriedade das elites no poder, cada vez que muda o governo costuma-se nomear dezenas de milhares de pessoas para empregos públicos, aprisionando a política à necessidade de sobrevivência dos servidores empregados, dependentes da continuidade.

Se quisermos emancipar a política, antes do segundo centenário da emancipação política, serão necessárias duas ações. A primeira é uma revolução educacional que permita emancipar o povo de dependência de auxílios, para que o eleitor possa votar sem dever favor ao partido no poder.
A segunda é uma reforma radical na maneira como a política é feita, derrubando cada uma das amarras.   A primeira depende de tempo, a segunda da vontade dos eleitos amarrados. Por isso, dificilmente haverá tempo para emancipar a política, antes do bicentenário da emancipação política.


 
do Blog do Noblathttp://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2014/11/emancipacao-da-politica.html

Discurso de Nicolás Maduro sobre a vitória de Dilma

É interessante ver como os 'bolivarianos revolucionários' do Foro de São Paulo enxergam a vitória da presidente Dilma.

Repete o que li diversas vezes nos jornais, blogs, redes ... a candidatura do PSDB representaria uma volta ao neoliberalismo. De fato isto me surpreende e deixa confusa. O neoliberalismo é algo que há 20 anos atrás teve seu momento, foi vivenciado e experimentado no mundo e esse momento já passou, esse modelo já caducou. Me parece nesse aspecto bastante anacrônico mencionar isto.

O segundo ponto que me deixa confusa é colocar (rotular) o PSDB como direita e como consequência atribuir a ele todas as características de um partido de direita. Sobre este ponto, vejo que o PT, com suas alianças partidárias, deixou de se apresentar como um partido de esquerda para passar a ocupar a posição de um partido de centro-esquerda e com isto força um deslocamento do PSDB para a direita, o qual também é um partido de esquerda. E então, o que é um movimento relativo de esquerda-direita passa a ser considerado como posição absoluta atribuindo ao PSDB todo o rol de características que normalmente se atribui à 'direita'. Este modo de tratar o tema distorce a realidade e objetividade da interpretação dos fatos, apenas confundindo mais o cenário. É necessário sair desses rótulos se quisermos ir adiante.


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A tragédia petista

domingo, outubro 26, 2014


A tragédia petista - ZANDER NAVARRO

O ESTADO DE S.PAULO - 26/10


Peço licença, inicialmente, para um breve relato pessoal. Nos anos 1980 contribuí mensalmente com parte do meu salário para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Os depósitos duraram de dois a três anos, quando a campanha foi encerrada, por falta de adesão. Com sacrifício, cheguei a oferecer até 10% do meu ganho e ainda guardo os recibos. Por que fiz isso? Naqueles anos, saindo do ciclo militar e ansioso pela democracia, ingenuamente entendi ser o MST uma força que renovaria a oligárquica política rural. Como os seus militantes passaram a ameaçar as famílias em assentamentos, o sonho desmoronou e retornei à vida universitária.

Na época, quase todos nós apoiávamos o PT, mesmo não sendo filiados. Imaginávamos que o partido também forçaria transformações em alguma direção positiva. Ou a reforma social ou, ao menos, a democratização da sociedade. Vivíamos então um período febril de debates plurais e de experiências práticas. Lembram-se do "modo petista de governar"? Era simbolizado pelo orçamento participativo, que prometia a livre participação dos cidadãos em decisões públicas sobre os orçamentos municipais. Na campanha de 2002, contudo, o candidato petista mal falou do assunto e, no poder, o tema se esfumaçou.

O assombroso escândalo da Petrobrás, que nos deixa estupefatos, é apenas o efeito inevitável da história do Partido dos Trabalhadores. A causa original é um mecanismo que o diferencia das demais agremiações partidárias. Trata-se de um processo de mobilidade social ascendente, inédito em sua magnitude. Movimento que poderia ser virtuoso, se aberto a todos, pois seria a consequência do desenvolvimento social. Mas, na prática, vem sendo uma odiosa discriminação, pois é processo atado à filiação partidária.

O núcleo pioneiro do PT recrutou segmentos das classes baixas e mais pobres, mobilizados pelo campo sindical, pelos setores radicalizados das classes médias, incluindo parte da intelectualidade, e pela esquerda católica, ampliando nacionalmente o grupo petista inicial. À medida que o partido, já nos anos 90, foi conquistando nacos do aparato estatal, vieram os cargos para os militantes e, assim, a chance arrebatadora de ascender às vias do dinheiro, do poder, das influências e do mando pessoal. Esse foi o degenerativo fogo fundador que deu origem a tudo o que aconteceu posteriormente.

Inebriados, cada vez mais, pelo irresistível prazer do novo mundo aberto a essas camadas, até mesmo impensáveis formas de consumo, todos os sonhos fundacionais de mudança foram sendo estilhaçados ao longo do caminho, incluídos a razoabilidade e os limites éticos. O PT gerou dentro de si uma incontrolável ânsia de mobilidade, uma voragem autodestruidora inspirada na monstruosa desigualdade que sempre nos caracterizou. Conquistado o Planalto, não houve nem revolução nem reforma e o fato serviu, particularmente, para saciar a fome histórica dos que vieram de baixo.

Instalou-se, em consequência, o arrivismo e a selva do vale-tudo: foi morrendo o padrão Suplicy e entrou o modelo Delúbio-Erenice. Logo a seguir, ante a inépcia da ação governamental, também foi necessário impor a mentira como forma de governo. Por fim, o PT mudou de cabeça para baixo o seu próprio financiamento. Abandonou o apoio miúdo e generoso dos milhões que o sustentaram na primeira metade de sua história, pois se tornara mais cômodo usar o atacado para ancorar-se no poder. Primeiro, o mensalão e, agora, os cofres da Petrobrás.

Nessa espiral doentia de mudanças, a partir de meados dos anos 1990 o partido enterrou o seu passado. Sua capacidade de reflexão, por exemplo, deixou de existir e o imediatismo passou a prevalecer. Assim, um projeto de nação ou uma estratégia de futuro não interessavam mais. O pragmatismo tornou-se a máxima dessa nova elite e sob esse caminho o subgrupo sindical e seus militantes vêm pilhando o que for possível dentro do Estado. Examinados tantos escândalos, invariavelmente a maioria veio do campo sindical. E foi assim porque da tríade original dos anos 80, a classe média radicalizada e os religiosos abandonaram o partido. Deixaram de reconhecê-lo como o vetor que faria a reforma, sobretudo moral, da política brasileira.

Entrando neste século, o PT não tinha nada mais para oferecer de distintivo em relação aos demais partidos. A aliança com o PMDB ou Lula abraçando Maluf foram decorrências naturais. Também por tudo isso, o campo petista reivindicar o monopólio da virtude é o mesmo que fazer de idiotas todos os cidadãos. No primeiro turno, a fúria das urnas demonstrou a reação indignada dos eleitores à falsidade.

O que vemos atualmente é a soma dessa descrição com as nossas incapacidades políticas de construção democrática em favor do bem comum. O PT é hoje uma neo-Arena que promove, sobretudo, o clientelismo nos grotões. Não aqueles definidos geograficamente, mas os existentes nos interstícios sociais, confundindo as pessoas por meio da mentira, do bolsismo e das mistificações de toda ordem. É uma trajetória vergonhosa para um partido que prometeu a lisura republicana, o aprofundamento democrático, a reforma de nossas muitas iniquidades e, especialmente, prometeu corrigir a principal deformação de nossa História, que é um padrão de desigualdade que nos infelicita desde sempre. É ação que igualmente vem abastardando o Estado, atualmente tornado disfuncional e semiparalisado em inúmeros setores.

Por todas essas razões, incluindo o benéfico aperfeiçoamento que, fora do poder, sofrerá o próprio PT, é preciso mudar. E com urgência, pois o Brasil se esfarinhará sob outros quatro anos dessa gigantesca manipulação política, o desprezo pela democracia, o primado da lealdade partidária sobre a meritocracia e a fulgurante incompetência técnico-administrativa do campo petista no poder.

SOCIÓLOGO, É PROFESSOR APOSENTADO DA UFRGS (PORTO ALEGRE) EMAIL: Z.NAVARRO@UOL.COM.BR

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O TSE e a descoberta do programa de fraude nas urnas eletrônicas

Jornal GGN - Há menos de três meses, um jovem hacker recém formado pela Universidade de Brasília acessou o sistema das urnas eletrônicas no TSE e descobriu, entre 90 mil arquivos, um software que possibilita a instalação de programas fraudados: o “Inserator CPT”. A ação foi planejada pela CMind (Comitê Multidisciplinar Independente), formado por especialistas em tecnologia.
A advogada Maria Aparecida Cortiz, que participa do grupo, articulou a estratégia dentro do Tribunal Superior Eleitoral, representando o PDT, depois que o presidente da Corte Dias Toffolli anunciou que não abriria edital para testes nas urnas das eleições 2014. “Não vai fazer teste? Então vamos por um hacker lá dentro para descobrir o que tem de errado”, disse em entrevista ao GGN.
Cortiz descobriu outra brecha no sistema: além do Inserator, o programa comandado pela empresa Módulo Security S/A – conforme relato do GGN a única proprietária do serviço por 13 anos com contratos irregulares – é transmitido de Brasília para os estados por meio da insegura rede da Internet.
As denúncias de irregularidades foram enviadas ao TSE em uma petição. Entretanto, a petição não virou processo e foi arquivada por um juiz da Secretaria de Informática. Além da omissão do próprio ministro Dias Toffoli, a advogada ainda denuncia o desaparecimento de quatro páginas do documento. “É o crime perfeito. O réu julga suas próprias ações”, conclui.
Leia a entrevista completa:
Procurador-geral Rodrigo Janot, a advogada Maria Cortiz e o ministro Dias Toffoli, durante cerimônia de lacre do software em setembro de 2014
GGN: Como seria fazer uma auditoria preventiva para evitar as fraudes eleitorais?
O problema do TSE é a concentração do poder. Para fazer uma auditoria, temos os limitadores que eles próprios nos impõem.
Uma auditoria no software é inócua, porque é muito cara, muito demorada e existem sempre as cotas do fundo. E a gente não conseguiria ter certeza que tudo o que a gente pediu seria implementado e que estaria sendo usado no dia da votação.
GGN: E o processo de auditoria feito em janeiro de 2013, investigando as licitações da Módulo Security S.A.?
Todas as licitações foram feitas para manter a Módulo. Isso é fato, notório, público, por aquelas consultas que eu fiz nos Diários Oficiais, que são documentos públicos, que todos os procedimentos foram feitos para manter a empresa Módulo lá dentro, no TSE. O que é a empresa Módulo? É responsável pela segurança do sistema. É responsável pelos SIS, um sistema de instalação de segurança, é o primeiro sistema que confirma as assinaturas para validar os programas que são colocados na urna.
O TSE, com a concentração de poderes, não deixa a gente fazer nada e a gente não tinha mais solução para tentar mudar esse sistema. Aí eu propus para o grupo, que é o CMind [Comitê Multidisciplinar Independente], em que o Pedro Rezende e o Diego Aranha também trabalham, e que a gente milita. Propus a eles que a gente colocasse um hacker dentro do TSE. Eu falei: consigam a pessoa, que eu vou ficar com ele lá dentro, dar as dicas, porque, embora a minha formação não seja técnica, estou lá há muitos anos, eu sei como funciona.
O Diego e o Pedro escolheram um menino chamado Gabriel Gaspar, que foi aluno deles na UNB. Em agosto, conseguiu ir. Por orientação, ele foi trilhando o mesmo caminho do Diego no código fonte. Diego Aranha é aquele técnico da UNB, professor que descobriu o desembaralhamento dos votos, que dava para identificar o eleitor. Então, o Diego orientou, disse o caminho, o que era importante.
A gente descobriu, no meio de 90 mil arquivos, um artefato (a gente chamou assim) no sistema de segurança, que é desenvolvido pela Módulo. Achamos que aquilo era importante, e fizemos todo um estudo. Para que ele serve? O ministro [Toffoli] assina um programa, manda para os outros ministros, Ministério Público e OAB assinarem, envia esse programa para os estados, e só poderia funcionar nas urnas esses que vieram de Brasília, concorda? Só que usando o "Inserator" podem ser instalados programas na urna, assinados por esse artefato. Ele está apto a validar programas não oficiais. Foi uma descoberta muito importante. Isso foi agora, dia 4 de setembro.
Em 2013, eu não sabia como que eles faziam, quando eu fiz o estudo da licitação da Módulo, sabia que a empresa estava usando alguma coisa, mas não o que era. Neste ano, nas eleições 2014, eu descobri como o programa foi utilizado, lá em Londrina, em 2012: com o Inserator. A gente descobriu o nome dele e onde ele estava: dentro do sistema de segurança, é um subsistema.
GGN: E o resultado disso?
Cópia da Petição enviada à OABA partir daí, fiz uma petição com o ministro Dias Toffoli, explicando que, além disso, que é gravíssimo, tem outras vulnerabilidades. Descobrimos outra coisa muito, muito ruim: a Justiça Eleitoral não está usando mais aquela rede super segura, que sempre disseram que nada tem conexão com a internet, não é?
Só que eu pedi para fazer um teste lá [no sistema de urnas do TSE] e eles toparam, mas não sabiam a minha intenção com esse teste, não sabiam que eu estava com um hacker. Eu pedi para fazer o teste questionando se um computador que gera mídia – a mídia é aquele pendrive que vai carregar a urna – pode estar conectado à internet. Pedi: quero que façam o teste, um computador conectado e um não conectado. Aí eles falaram: nós vamos fazer, mas não tem sinal nenhum, porque nós usamos a internet.
Então, os programas que estão vindo para os estados, que são assinados, criptografados, vêm via internet. Não tem mais a rede hiper super segura. Eles próprios pagaram uma fortuna para abrir a rede, e abandonaram, porque ela não é segura de jeito nenhum.
Olha a situação: o Inserator existe, está dentro do SIS, o SIS é instalado no computador da Justiça Eleitoral, o computador da Justiça Eleitoral está conectado à internet. A pessoa que conhece o Inserator puxa um programa da Internet, as pessoas não sabem de onde veio aquele programa, assina no teclado e coloca na urna. Que dificuldades tem isso?
O partido político, o fiscal, o juiz que estiver lá não percebe. Não dá para perceber a diferença de colocar um programa original de um fraudado. Porque a justiça eleitoral confessou que precisa da Internet para gerar mídia.
GGN: Qual foi a consequência da petição?
Tudo que entra na Justiça vira processo. A minha petição foi para o juiz auxiliar secretário da presidência, julgada com um parecer da secretaria de informática, e mandada para o arquivo. Ela não tinha capa, não tinha número, só tinha número de protocolo, não virou processo. Eles tinham que, de qualquer maneira, desaparecer com isso, eles não podiam colocar como visível para outras pessoas. Tanto é que, você como jornalista, não encontra porque não fizeram número, não fizeram processo. É só um número de protocolo qualquer. [Anexo o acompanhamento processual no TSE]
Qual seria o trâmite, de acordo com a resolução: apresentada a impugnação, é escolhido um relator, o relator leva para a mesa, para julgar. E esse julgamento iria passar na televisão, ia ser público. Eles não podiam deixar isso acontecer, de jeito nenhum.
Então, foi grampeada a petição, com o parecer da secretaria de informática. O juiz indeferiu, mandou arquivar.
Nós fomos atrás desse processo. O parecer tem nove páginas, mas só tem cinco lá, o resto está faltando. Ninguém sabe onde está esse parecer. A gente está aguardando, para ver se eles acham o resto.
GGN: Não consegui encontrar o contrato da Módulo, ela venceu a licitação para as eleições de 2014?
Venceu. Eles fizeram uma coisa totalmente direcionada. A Módulo participa do projeto base, então só ela ganha [a licitação].
GGN: Por que os outros concorrentes não teriam critérios técnicos?
São eles que criam os critérios técnicos. Para ganhar. Então, não tem chance, não tem como ganhar. A Módulo tem contrato com todos os órgãos do governo. Não é só um, são todos.
GGN: Como mandou para o TSE, você poderia mandar esses documentos ao MPF, à OAB, para articular melhor a sua petição?
Eu mandei para a OAB, porque ela poderia mexer com isso. Mas o presidente do Conselho Federal da OAB [Marcus Vinicius Furtado Coêlho] falou uma coisa que eu quase morri do coração. Falou que as urnas brasileiras são exportadas para o mundo inteiro. Primeiro, que não é "TSE Limitada" e muito menos "S.A.". E outra, nenhum país do mundo aceita essas urnas. Então, eu fiz a petição, com a minha obrigação de ofício como advogada, entreguei para ele com as irregularidades. Mas ele não tomou conhecimento, não.
GGN: As auditorias podem ser feitas por qualquer órgão?
A lei 9.504 só permite que analisem os programas o Ministério Público, a OAB e Partidos Políticos. Então, embora eu faça parte do CMid, eu tenho que fazer parte de um partido político. Tanto que já sou filiada há muitos anos, mas não sou ligada ao PDT, não tenho nenhuma vinculação, a não ser esse trabalho de ir lá e fazer a análise de códigos.
Especialistas discutem como hacker de 19 anos fraudou eleições no RJ, em 2012A Justiça Eleitoral, de quando em quando, publica o edital de que vão existir testes. O Diego participou de um teste nas urnas de 2012, desembaralhou os votos e descobriu quem votava em quem. Também estávamos juntos, porque ele não poderia falar [por não ter a autorização do TSE]. Então eu fiquei do lado dele, escutei [as conclusões] e passei para frente. Teve que ter toda uma estratégia.
Este ano, o ministro Toffoli disse que não ia fazer teste. Não vai fazer teste? Então vamos por um hacker lá dentro para descobrir o que tem de errado.
GGN: Legalmente falando, é possível?
A lei fala que o TSE tem que apresentar os códigos fonte para mim. Eu fui com base na lei. Só que eles não sabiam da capacidade do menino, se eles soubessem teriam bloqueado. Porque é muito, muito restrito. O PDT tem outros técnicos, mas um ficou fora, e eu sou advogada, normalmente eu não sento nas máquinas. Só que este ano a gente mudou de estratégia. Eu fui sozinha e levei o menino, que eles nem sabiam quem era. Eles achavam que ele era do PDT, e não da UNB.
GGN: Essa sua petição não foi a público?
Foi, está dando uma repercussão boa, porque eu falei dela na Universidade Federal da Bahia. O Pedro fez um site, eu fiz o debate na Bahia. Não é a mesma divulgação que Justiça eleitoral dizendo que nada é conectado à internet.
Se não fosse verdade, eu já teria respondido a milhares de processos pela Polícia Federal. Não tem como dizer que não está lá dentro, o programa está lá dentro. 

http://jornalggn.com.br/noticia/o-tse-e-a-descoberta-do-programa-de-fraude-nas-urnas-eletronicas

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Brasil eleições 2014 - III

Algo seriamente a se refletir, nem tanto pela questão dos votos, mas pela questão da dignidade dos cidadãos.
Esperemos que a dependência se torne independência.


Brasil eleições 2014 - II

Demanda Social => Demanda Econômica

Os analistas políticos e comentaristas foram unânimes em mencionar que enquanto Dilma tinha um discurso voltado para o 'social', Aécio tinha um discurso voltado para a economia.
O que faltou mencionar foi que o Brasil está em um quadro de recessão economica, tendo um dos piores indices de crescimento e de pib. Faltou mencionar que para manter e expandir os programas sociais (que todos concordam que devam ser aperfeiçoados) é necessário que a economia se recomponha, que o pais volte a crescer, etc. Aécio foi direto ao ponto apresentando suas propostas, mas o PT não se pronunciou a respeito. Resta a incógnita de como ele irá equacionar a expansão dos programas sociais x recessão econômica.

Brasil eleições 2014 - I

Bom, as cartas já foram dadas.

Bom, as cartas já foram dadas.

É o PT 16 anos no poder, e com muitas chances de ter mais 8 anos de Lula completando 24 anos no poder.
..............................................................................................................
O PT ganhou com uma diferença muito pequena, cerca de 3 mi de votos apenas.

Em Minas Gerais, Dilma com 52,41% (5.979.221) e Aécio Neves com 47,59% 5.428.796.

Em Belo Horizonte, Aécio com 64,28% (937.428) e Dilma com 35,73% (521.042 votos).

Em Brasilia, sede do poder, Aécio com  61,90% (943.275) e Dilma com 38,10%
(580.581).

Então, podemos ver que tanto no Brasil como em MG o PT ganhou por muito pouco.
Mas  em Belo Horizonte Aécio ganhou largamente de Dilma. Estes números mostram que Aécio não foi 'rejeitado' na sua terra natal assim como diziam a propaganda do PT e comentaristas. O resultado foi bem outro.
Muito significativo é também Aécio ter tido uma ampla votação em Brasília, sede do poder,  onde o PT está há 12 anos.  
........................................................................................................................

O legado nefasto desta eleição foi uma nação separada entre sul x norte.

Certamente se o Rei Salomão fosse chamado para estas eleições ele diria que preferiria perder o pleito a dividir a nação colocando uns contra os outros.

Resta desejar que o Brasil encontre seu melhor rumo esperando que a ferida da ruptura da nação de alguma forma possa ser sanada.


É o PT 16 anos no poder, e com muitas chances de ter mais 8 anos de Lula completando 24 anos no poder.


..............................................................................................................
O PT ganhou com uma diferença muito pequena, cerca de 3 mi de votos apenas.
Em Minas Gerais, Dilma com 52,41% (5.979.221) e Aécio Neves com 47,59% 5.428.796.
Em Belo Horizonte, Aécio com 64,28% (937.428) e Dilma com 35,73% (521.042 votos).
Em Brasilia, sede do poder, Aécio com 61,90% (943.275) e Dilma com 38,10%
(580.581).
Então, podemos ver que tanto no Brasil como em MG o PT ganhou por muito pouco.
Mas em Belo Horizonte Aécio ganhou largamente de Dilma. Estes números mostram que Aécio não foi 'rejeitado' na sua terra natal assim como diziam a propaganda do PT e comentaristas. O resultado foi bem outro.
Muito significativo é também Aécio ter tido uma ampla votação em Brasília, sede do poder, onde o PT está há 12 anos.
........................................................................................................................
O legado nefasto desta eleição foi uma nação separada entre sul x norte.
Certamente se o Rei Salomão fosse chamado para estas eleições ele diria que preferiria perder o pleito a dividir a nação colocando uns contra os outros.
Resta desejar que o Brasil encontre seu melhor rumo esperando que a ferida da ruptura da nação de alguma forma possa ser sanada.




domingo, 1 de junho de 2014

Basta de fingir


Artigo para O Globo 30/5/2014

*Por Cristovam Buarque

O Brasil comemora sua posição de sétimo maior PIB do mundo, mas o PIB per capita rebaixa o país para a 54ª posição no cenário mundial; no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) ficamos em 85º lugar. Fingimos ser ricos, apesar da pobreza.

Nos últimos 20 anos, passamos de 1,66 milhão para 7,04 milhões de matrículas nos cursos superiores, mas quase 40% de nossos universitários sabem ler e escrever mediocremente, poucos sabem a matemática necessária para um bom curso nas áreas de ciências ou engenharias, raros são capazes de ler e falar outro idioma além do Português. Fingimos ser possível dar um salto à universidade sem passar pela Educação de Base.

Comemoramos ter passado de 36 milhões, em 1994, para 50 milhões de matriculados na Educação Básica, em 2014, sem dar atenção ao fato de termos 13 milhões de adultos prisioneiros do analfabetismo; 54,5 milhões de brasileiros com mais de 25 anos não terminaram o Ensino Fundamental e 70 milhões não terminaram o Ensino Médio. Fingimos que os matriculados estão estudando, quando sabemos que passam meses sem aulas por causa de paralisações ou falta de professores.

A partir de 1995, no DF e em Campinas, iniciamos um programa que serve de exemplo ao mundo inteiro, atualmente chamado de Bolsa Família e que transfere por mês, em média, R$ 167,00 por pessoa pobre, o que lhe assegura R$ 5,67 por dia, valor insuficiente para aliviar suas necessidades mais essenciais. E fingimos que, com esta transferência, estamos erradicando a pobreza que é caracterizada efetivamente pela falta de acesso aos bens e serviços essenciais que não estamos oferecendo. Fingimos ter 94,9 milhões na classe média, sabendo que a renda média mensal per capita dessas pessoas está entre R$ 291 e R$ 1.019, quantia insuficiente para uma vida cômoda, especialmente em um país que não oferece educação e saúde públicas de qualidade.
Comemoramos o aumento da frota de automóveis de, aproximadamente, 18 milhões, em 1994, para 64,8 milhões, em 2014, fingindo que isto é progresso, mesmo que signifique engarrafamentos monumentais.

Comemoramos, corretamente, termos desfeito uma ditadura, esquecendo que a democracia está sem partidos e a política se transformou em sinônimo de corrupção. Fingimos ter uma democracia com liberdade de imprensa escrita em um país onde poucos são capazes de ler um texto de jornal. Assistimos 56 mil mortos pela violência ao ano, e fingimos ser um país pacífico, sem uma guerra civil em marcha.

Fingimos ser um país com ambição de grandeza, mas nos contentamos com tão pouco que os governantes se recusam a ouvir críticas sobre a ineficiência dos serviços públicos. Preferem um otimismo ufanista, comparando com o passado que já foi pior, e denunciam como antipatriotas aqueles que ambicionam mais e criticam as prioridades definidas e a incompetência como elas são executadas. Antipatriota é achar que o Brasil não tem como ir além, é acreditar nos fingimentos.
*Cristovam Buarque é professor da UnB e senador pelo PDT-DF

sábado, 10 de maio de 2014

Brasil contribuirá para um novo modelo global

Brasil contribuirá para um novo modelo global, diz Domenico De Masi

  • O sociólogo italiano afirma em novo livro que, apesar da desigualdade social, o Brasil pode colaborar para a construção de um novo modelo social para o mundo



Singular. Para Domenico de Masi, modelo brasileiro tem fatores intoleráveis, como a corrupção, e aspectos positivos, como a cordialidade
Foto: Terceiro / Divulgação

Singular. Para Domenico de Masi, modelo brasileiro tem fatores intoleráveis, como a corrupção, e aspectos positivos, como a cordialidade Terceiro / Divulgação
 
Prestes a completar 76 anos, o sociólogo italiano Domenico De Masi defende em seu novo livro, “O futuro chegou: modelos de vida para uma sociedade desorientada” (Casa da Palavra em parceria com Quitanda Cultural), que chega esta semana às livrarias, que o modelo da sociedade brasileira pode ser um exemplo para o resto do mundo.
— Com seu patrimônio histórico e cultural, o Brasil pode dar contribuições insubstituíveis à formação do novo modelo global, e os intelectuais brasileiros, depositários destas contribuições, podem conferir a este modelo uma dimensão ecumênica — afirmou De Masi, em entrevista por e-mail ao GLOBO.
Embora admita problemas no modelo brasileiro — como a distância entre pobres e ricos, o analfabetismo e a corrupção —, destaca os fatores positivos, como o sincretismo, a postura positiva em relação à vida e a aversão à guerra.
Na sua avaliação, a atual crise econômica mundial é “uma redistribuição planetária da riqueza”, na qual os países mais ricos ficarão menos ricos e os pobres, menos pobres.

O senhor aborda no livro a situação única do Brasil. O que mais se destaca no nosso modelo de vida?
A especificidade do Brasil me pareceu evidente ao ler livros, ver filmes e telenovelas e viajar centenas de vezes por todo o país, tendo contatos intensos com brasileiros de todas as classes sociais. Hoje, o Brasil está só, entre dois modelos antigos em crise — o europeu e o americano — e um novo modelo que o mundo inteiro espera, que demora a nascer, mas que virá mais cedo ou mais tarde. Num mundo global não é mais possível que apenas um país desenhe esse modelo, mas ele ocorre com a contribuição de todos. De cada modelo já experimentado no Oriente e no Ocidente devemos extrair o melhor e, a partir desse recurso cultural oportunamente selecionado, atualizado e modelado, devemos definir os valores capazes de orientar nossa sociedade pós-industrial, indicando-lhe a meta e a rota. Dizia Sêneca: “Nenhum vento é favorável para o marinheiro que não sabe aonde quer ir”. Devemos definir onde e como, se não permaneceremos na confusão. Com seu patrimônio histórico e cultural, o Brasil pode dar contribuições insubstituíveis à formação do novo modelo global e os intelectuais brasileiros podem conferir a esse modelo uma dimensão ecumênica.

Pode citar um exemplo?
Está acontecendo no mundo a mais imponente mistura racial de todos os tempos, determinada a nível físico pelas migrações e, a nível cultural, pela mídia e pela internet. Todo o mundo está virando mestiço, mas apenas o Brasil já experimentou há tanto tempo e tão a fundo a miscigenação. No século XX, os intelectuais que Sérgio Buarque de Hollanda chamou de “inventores do Brasil” (de Joaquim Nabuco a Euclides da Cunha, de Manoel Bomfim a Paulo Prado, de Gilberto Freire a Celso Furtado) se esforçaram em revelar o Brasil para os brasileiros partindo justamente da sua miscigenação. Da mesma forma, o mundo aguarda quem revele a Terra aos humanos, quem a reinvente, conferindo-lhe, a partir de um novo modelo de vida, uma identidade nova e consciente.

O que os outros países podem aprender com o Brasil?
No curso de sua História, a humanidade produziu modelos de vida que homogeneizaram massas enormes nas grandes comunidades que chamamos civilização. No livro, escolhi 15 modelos (como, por exemplo, chinês, católico e industrial capitalista) que considero mais úteis para a construção do modelo necessário ao desenvolvimento equilibrado da nossa vida. O modelo brasileiro, que também contém fatores de distorção (como a excessiva aprovação do modelo americano) ou fatores intoleráveis (como a distância entre pobres e ricos, o analfabetismo, a corrupção), cultiva, todavia, uma série de aspectos positivos em quantidade dificilmente disponíveis em outro lugar: por exemplo o sincretismo, a cordialidade, a sensualidade sem o senso de culpa (“Não existe pecado do lado de baixo do Equador”, canta Chico), a receptividade, a amizade, a antropofagia cultural, a postura positiva em relação à vida, a aversão à guerra, a baixa propensão ao racismo, a tendência a considerar fluidos os limites entre o sagrado e o profano, entre o formal e o informal, entre o público e o privado, entre a emoção e a regra.
O senhor diz que as manifestações sociais no Brasil são causadas pela desorientação e confusão psicossocial provocada pela falta de um modelo de referência. Como isso ocorre?
Hoje a desorientação representa o fator determinante de cada manifestação da sociedade. Não apenas no Brasil, mas em todas as sociedades industriais e pós-industriais. Isso deriva da nossa dificuldade em compreender, metabolizar e gerir o desenvolvimento tecnológico, as mudanças organizacionais, a globalização, a prevalência da economia e das finanças sobre a política, a escolarização difundida, a mídia de massa e a internet. Todo o mundo falou dos movimentos no Brasil, nos Estados Unidos, na França, na Turquia.

O que diferencia o Brasil?
O Brasil é visto como um país aberto ao novo e às mudanças. Um país que, ainda nos piores momentos, afronta a realidade com um sentimento positivo. Em relação ao passado, o país apresenta dois novos elementos: para vocês é mais difundida a consciência de ser uma nação de ponta, propositiva, capaz de realizar profundas mutações no seu interior e de propor também ao exterior o seu modo de ser. O movimento social que, durante os últimos meses, se verificou em várias formas nas praças, na internet e nos shopping centers brasileiros representa uma de tantas expressões desse crescimento. O Brasil foi precocemente pós-industrial. Em alguns casos as contestações vieram de forma latente, escondidas na música, no futebol, na capoeira, no carnaval. Em outros, vieram de forma mais explícita, por meio de movimentos artísticos, políticos, sindicais e religiosos. Hoje, chegam de forma virtual pela internet e em forma física nas manifestações nas praças, nos saques a grandes lojas e no vandalismo contra os bancos, considerados as mães de todos os desastres econômicos. Diferentemente de nós, italianos, que toleramos covardemente Silvio Berlusconi (ex-primeiro ministro) e o berlusconismo, os brasileiros demonstraram ter uma paciência limitada e saber enfrentar os males comuns. É provável que alguns dos manifestantes tenham sido motivados pelo consumismo, mas a grande maioria quer aumentar a igualdade e a justiça combatendo a violência, a corrupção, o analfabetismo, as distâncias entre os exploradores e os explorados. Tudo isso de modo bastante pacífico, se pensarmos que no século XVIII a burguesia chegou ao poder guilhotinando mais de vinte mil nobres.

O senhor argumenta que o recuo do PIB dos países ricos e a crise financeira de 2008 são o início de “uma longa e implacável redistribuição mundial de riqueza". Como se dá o fenômeno?
O PIB global cresce cerca de três ou quatro pontos percentuais a cada ano. Por séculos, esse crescimento foi vantajoso para o primeiro mundo, às custas do terceiro mundo, enquanto hoje favorece, sobretudo, os países emergentes. Entre 1982 e 1987, os dez países que mais contribuíram para o crescimento global foram EUA (30%), Japão (10,3%) e China (9%), seguidos por Reino Unido, Brasil, Índia, Alemanha, Coreia do Sul, Itália e Canadá. Estudo do FMI e do Instituto Global McKinsey nos diz como mudará essa escala entre 2012 e 2017. Em primeiro lugar virá a China (34%), seguida por Estados Unidos (14%), Índia (9%), Brasil (4%) e depois Rússia, Indonésia, Coreia do Sul, México, Japão e Turquia. Os países mais ricos se tornarão menos ricos e os países mais pobres se tornarão menos pobres. Este processo, que o primeiro mundo chama de “crise”, iludindo-se que será passageiro, na realidade é uma redistribuição planetária da riqueza que transformará cada vez mais a ordem sociopolítica do mundo.

Estados Unidos e Europa perderão o espaço que ocupam?
Os Estados Unidos e a Europa continuarão a liderar a economia e a produção de ideias, mas a distância com o Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e os Civets (Colômbia, Indonésia, Vietnã, Egito, Turquia e África do Sul) será menor.

Como articularia hoje o conceito de ócio criativo num mundo do trabalho com cada vez mais tecnologias? A presença mais disseminada de smartphones, tablets e redes sociais não elimina o espaço para o ócio criativo?
Por “ócio criativo” não quero dizer repousar, perder tempo ou não fazer nada, rendendo-se à preguiça. Como “ócio criativo” entendo aquela atividade humana em que convergem e se confundem o trabalho com que criamos riqueza, o estudo com que criamos conhecimento e o jogo com que criamos alegria. É a atividade do artesão, do artista, do empreendedor, da dona de casa, do cientista quando desenvolvida com curiosidade, motivação, criatividade e satisfação. Smartphones, tablets e redes sociais são instrumentos que liberam tempo, permitem interações, facilitam conhecimentos. São os melhores aliados do ócio criativo. Eles reduzem a possibilidade de estar isolado ou desinformado, por exemplo. Mas podem fazer perder ou ganhar tempo. Eles são grandes aliados se usados com sabedoria.

O senhor diz que um novo modelo de vida deve ser escrito por todos e para todos. Vê espaço para uma geração espontânea dessas contribuições?
Com o surgimento da internet e das redes sociais, a cultura é produzida por muitos e destinada a muitos: todos os dias, por exemplo, milhares de pessoas ajudam a escrever a Wikipedia e milhares a consultam. Cada um dos 15 modelos examinados por mim no livro ensina o que aceitar e o que evitar na construção do modelo que nos falta. O modelo que nos ocorre hoje deve ter uma ótica planetária e, logo, deve envolver os melhores intelectuais de cada disciplina e de todo o mundo. Atualmente, não existe uma organização prática que possa recolher e coordenar essas contribuições, e este vazio foi preenchido por banqueiros. Com recursos, eles homogeneizaram a economia e com a economia homogeneizaram a política, impondo os seus valores. Mas existem todas as premissas para que essa organização se forme e, por sorte, dispomos de muitos casos de vanguarda que nos antecipam a experimentação: por exemplo, o Projeto Genoma no campo científico, os movimentos Slow Food e a Terra Madre (rede de organizações que promovem a produção sustentável de alimentos) no campo agrícola, o Sistema Nacional de Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela (sistema de educação musical pública) no campo musical. A História ensina que, quando os velhos modelos não satisfazem mais, mais cedo ou mais tarde floresce um novo, que oferece mais esperança e serenidade.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/brasil-contribuira-para-um-novo-modelo-global-diz-domenico-de-masi-11407117#ixzz31JkZDCWA
© 1996 - 2014. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização. 

terça-feira, 8 de abril de 2014

A ditadura que não diz seu nome

O imaginário sobre a Amazônia e os povos indígenas, forjado pelo regime de exceção, é possivelmente a herança autoritária mais persistente na mente dos brasileiros de hoje, incluindo parte dos que estão no poder. E a que mais faz estragos na democracia.

 

 

 

 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Empresários que apoiaram o golpe de 64 construíram grandes fortunas com dinheiro público

PORTAL FORUM
Por Redação março 30, 2014 12:25



Empresários que apoiaram o golpe de 64 construíram grandes fortunas com dinheiro público

Pesquisador afirma que no golpe dos empresários, a “mais beneficiada foi a Globo”


Por Diário do Centro do Mundo

Com mestrado na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo sobre os empresários e o golpe de 64 e em fase de conclusão do doutorado sobre os empresários e a Constituição de 1988, o professor Fabio Venturini esmiuçou os detalhes de “como a economia nacional foi colocada em função das grandes corporações nacionais, ligadas às corporações internacionais e o Estado funcionando como grande financiador e impulsionador deste desenvolvimento, desviando de forma legalizada — com leis feitas para isso — o dinheiro público para a atividade empresarial privada”.
Segundo o pesquisador, é isto o que nos afeta ainda hoje, pois os empresários conseguiram emplacar a continuidade das vantagens na Carta de 88.

Venturini cita uma série de empresários que se deram muito bem durante a ditadura militar, como o banqueiro Ângelo Calmon de Sá (ligado a Antonio Carlos Magalhães) e Paulo Maluf (empresário que foi prefeito biônico, ou seja, sem votos, de São Paulo).

Na outra ponta, apenas dois empresários se deram muito mal com o golpe de 64: Mário Wallace Simonsen, um dos maiores exportadores de café, dono da Panair e da TV Excelsior; e Fernando Gasparian. Ambos eram nacionalistas e legalistas. A Excelsior foi a única emissora que chamou a “Revolução” dos militares de “golpe” em seu principal telejornal.

Sobre as vantagens dadas aos empresários: além da repressão desarticular o sindicalismo, com intervenções, prisões e cassações, beneficiou grupos como o Ultra, de Henning Albert Boilesen, alargando prazo para pagamento de matéria prima ou recolhimento de impostos, o que equivalia a fazer um empréstimo sem juros, além de outras vantagens. Boilesen foi um dos que fizeram caixa para a tortura, e comparecia pessoalmente ao Doi-CODI para assistir a sessões de tortura. Foi justiçado por guerrilheiros.

Outros empresários estiveram na mira da resistência, como Octávio Frias de Oliveira, do Grupo Folha, que apoiou o golpe. O que motivou o desejo da guerrilha de justiçar Frias foi o fato de que o Grupo Folha emprestou viaturas de distribuição de jornal para campanas da Operação Bandeirante (a Ultragás, do Grupo Ultra, fez o mesmo com seus caminhões de distribuição de gás). Mais tarde, a Folha entregou um de seus jornais, a Folha da Tarde, à repressão.

“Se uma empresa foi beneficiada pela ditadura, a mais beneficiada foi a Globo, porque isso não acabou com a ditadura. Roberto Marinho participou da articulação do golpe, fez doações para o Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (Ipes, que organizou o golpe). O jornal O Globo deu apoio durante o golpe. Em 65, o presente, a contrapartida foi a concessão dos canais de TV, TV Globo, Canal 4 do Rio de Janeiro e Canal 5 São Paulo”, diz Fabio Venturini.

Ainda segundo o pesquisador, “na década de 70 a estrutura de telecomunicações era praticamente inexistente no Brasil e foi totalmente montada com dinheiro estatal, possibilitando entre outras coisas ter o primeiro telejornal que abrangesse todo o território nacional, que foi o Jornal Nacional, que só foi possível transmitir nacionalmente por causa da estrutura construída com dinheiro estatal. Do ponto-de-vista empresarial, sem considerar o conteúdo, a Globo foi a que mais lucrou”.

“A Globo foi pensada como líder de um aparato de comunicação para ser uma espécie de BBC no Brasil. A BBC atende ao interesse público. No Brasil foi montada uma empresa privada, de interesse privado, para ser porta-voz governamental. Se a BBC era para fiscalizar o Estado, a Globo foi montada para evitar a fiscalização do Estado. Tudo isso tem a contrapartida, uma empresa altamente lucrativa, que se tornou uma das maiores do mundo (no ramo).”

Venturini também fala do papel de Victor Civita, do Grupo Abril, que “tinha simpatia pela ordem” e usou suas revistas segmentadas para fazer a cabeça de empresários, embora não tenha conspirado.
Saiba Mais: viomundo